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Artigos · Obesidade e emagrecimento

Canetas emagrecedoras: o que são, indicações, riscos e quando é um erro usar

Ozempic, Wegovy e Mounjaro mudaram o tratamento da obesidade. Veja como funcionam, quem tem indicação e o que acontece com o peso quando o remédio é suspenso.

Dr. Rafael Higashi
Revisado pelo Dr. Rafael HigashiMestre em Medicina (Reg. 0081/2008- UFF) · Neurologista (RQE 13728) · Nutrólogo (RQE 19627) · CRM-RJ 52.74345-3Publicado em · Atualizado em · 9 min de leitura
Canetas de medicação injetável usadas no tratamento da obesidade

Resposta rápida

As canetas emagrecedoras são medicamentos injetáveis, como semaglutida e tirzepatida, que imitam hormônios do intestino (GLP-1 e GIP), reduzem o apetite e retardam o esvaziamento do estômago. São aprovadas para diabetes tipo 2 e para obesidade (IMC a partir de 30) ou sobrepeso (IMC a partir de 27) com doença associada. No Brasil, a farmácia retém a receita desde junho de 2025. Usar sem avaliação médica é um erro.

Em 30 segundos

  • Semaglutida age no receptor de GLP-1; tirzepatida, nos de GLP-1 e de GIP.
  • Indicação de bula não obriga a prescrição: a decisão é individual.
  • Parte do peso perdido pode ser músculo; a composição corporal precisa ser acompanhada.
  • Na extensão do STEP 1, quem parou a semaglutida recuperou cerca de dois terços do peso perdido em um ano.

Poucos remédios ficaram tão famosos tão rápido. Em consultórios, academias e grupos de família, a pergunta é sempre parecida: "será que eu devo usar?". A resposta honesta é que depende, e este artigo mostra exatamente do quê: como essas canetas agem, quem tem indicação, quais são os riscos e o que os estudos mostram sobre o peso depois que o tratamento acaba.

O que são as canetas emagrecedoras?

"Canetas emagrecedoras" é o nome popular de medicamentos injetáveis aplicados com uma caneta, uma vez por dia ou por semana. O nome descreve bem a forma e o efeito percebido. Na medicina, eles pertencem à classe dos incretinomiméticos: imitam hormônios que o intestino libera depois das refeições.

Agonistas do GLP-1

  • Semaglutida: Ozempic, Wegovy e genéricos
  • Liraglutida: Victoza, Saxenda
  • Agem em um receptor

Agonista duplo GIP e GLP-1

  • Tirzepatida: Mounjaro
  • Age em dois receptores ao mesmo tempo
  • Perfil farmacológico próprio

Como elas agem no corpo

O efeito acontece em três lugares ao mesmo tempo:

No cérebro

Reduzem o apetite e aumentam a saciedade.

No estômago

Retardam o esvaziamento, e a sensação de estômago cheio dura mais.

No pâncreas

Estimulam a insulina quando a glicose está alta.

Em muitas pessoas, isso reduz a quantidade de comida ingerida. A resposta varia de pessoa para pessoa, e as moléculas não são intercambiáveis: a experiência acumulada com uma não vale automaticamente para a outra.

De remédio para diabetes a tratamento da obesidade

A classe nasceu para tratar diabetes tipo 2. A indicação para obesidade veio depois, com doses e estudos próprios. Os pontos em azul cheio são marcos no Brasil.

  1. 2005

    Exenatida, a primeira da classe, para diabetes

    FDA
  2. 2014

    Liraglutida (Saxenda) para obesidade

    FDA
  3. 2017

    Semaglutida semanal (Ozempic) para diabetes

    FDA
  4. 2021

    Semaglutida (Wegovy) para obesidade

    FDA
  5. 2023

    Wegovy aprovado para controle de peso; Mounjaro para diabetes

    Anvisa
  6. 2025

    Mounjaro para obesidade (junho) e receita retida (23 de junho)

    Anvisa
  7. 2026

    Primeiro genérico de semaglutida em caneta (agosto)

    Anvisa

Quem tem indicação para usar?

A bula prevê o uso em diabetes tipo 2 e no controle do peso de adultos nestas faixas de IMC:

18,5 a 24,9Peso adequado
25 a 26,9Sobrepeso
27 a 29,9Sobrepeso + doença associada: pode haver indicação
30 ou maisObesidade: pode haver indicação

Doenças associadas: hipertensão, colesterol alterado, apneia do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes. IMC = peso (kg) ÷ altura (m)².

Indicação de bula não é prescrição automática

A bula define em que condições o medicamento foi aprovado. A decisão clínica avalia se, para você, os benefícios superam os riscos e as alternativas. Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter respostas diferentes à mesma pergunta.

Esse raciocínio parte de entender a obesidade como doença crônica, com causas que vão do metabolismo ao sono e ao comportamento. A escolha entre os medicamentos para obesidade, a dose e o tempo de uso fazem parte desse plano.

O que acontece quando você para o remédio

Esta é a pergunta que quase ninguém faz antes de começar. O estudo STEP 1 acompanhou adultos com obesidade que usaram semaglutida 2,4 mg por 68 semanas, junto com um programa de estilo de vida. Na extensão do estudo, parte deles foi acompanhada por mais um ano depois que o remédio e o programa foram suspensos.

Variação do peso com e sem semaglutida

Média de variação em relação ao peso inicial (%), extensão do estudo STEP 1

0%-5%-10%-15%-20% Semana 0Semana 68Semana 120 Suspensão do medicamento -17,3% -5,6% -0,1%
  • Semaglutida 2,4 mg
  • Placebo
Fonte: Wilding JPH et al., Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022 (extensão do STEP 1). As linhas ligam os pontos medidos.
Ver os dados em tabela
GrupoSemana 68Semana 120
Semaglutida-17,3%-5,6%
Placebo-2,0%-0,1%

Em um ano sem o remédio e sem o programa, quem usava semaglutida recuperou cerca de dois terços do peso perdido. Isso não significa que o tratamento não vale a pena. Significa que a duração e a retirada precisam ser planejadas desde o início, junto com o trabalho sobre o comportamento alimentar.

Peso perdido nem sempre é gordura

Parte do peso que sai durante o tratamento pode ser massa muscular, principalmente quando a alimentação fica pobre em proteína e não há treino de força. A balança não mostra essa diferença.

Paciente fazendo bioimpedância InBody na Clínica Higashi
A bioimpedância separa músculo, gordura e água em poucos minutos, sem dor. É ela que mostra se o peso que saiu foi gordura ou músculo.
Na Clínica Higashi

A bioimpedância InBody é feita no consultório, no início e ao longo do tratamento. Acompanhar a perda de músculo durante o emagrecimento permite ajustar alimentação e treino a tempo.

Efeitos colaterais, riscos e contraindicações

Comuns e esperados

  • Náusea
  • Intestino preso ou diarreia
  • Falta de apetite
  • Costumam ser leves, ligados à dose, e melhorar com ajustes

Raros, mas relevantes

  • Pancreatite
  • Cálculos e inflamação da vesícula
  • Esvaziamento muito lento do estômago e obstrução intestinal
  • Hipoglicemia, sobretudo com insulina ou sulfonilureias
  • Piora da retinopatia em quem tem diabetes
  • Desidratação e lesão renal com vômitos intensos
  • Reações alérgicas graves
  • Aspiração pulmonar em anestesia ou sedação: avise antes de exames e procedimentos

Contraindicações e quando não usar

  • Alergia à substância ou aos componentes da fórmula
  • Histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2
  • Gastroparesia grave já existente
  • Gravidez e amamentação; quem planeja engravidar suspende antes, com orientação médica

Medicamentos novos também pedem cautela por outro motivo: os estudos antes da aprovação envolvem milhares de pessoas por tempo limitado. Eventos raros e efeitos de muitos anos de uso só aparecem depois, no acompanhamento em larga escala. A pergunta de toda prescrição é a mesma: para este paciente, os benefícios justificam os riscos conhecidos e os ainda em estudo?

Mitos e verdades

Mito

São seguras porque a classe existe há 20 anos.

Verdade

A tirzepatida foi aprovada nos Estados Unidos em 2022 (no Brasil, em 2023) e tem mecanismo duplo. O perfil de segurança de uma molécula não se transfere para outra.

Mito

Quem usa caneta não precisa mudar a alimentação.

Verdade

Alimentação e treino de força continuam essenciais, inclusive para preservar a massa muscular.

Mito

Se a obesidade é crônica, o remédio é para sempre.

Verdade

Doença crônica e remédio contínuo são coisas diferentes. A duração é decidida caso a caso, conforme a resposta e o plano de retirada.

Mito

O médico que não prescreve tem preconceito com a obesidade.

Verdade

Não prescrever para determinado paciente é uma decisão clínica individual, e não um julgamento.

Quando é um erro usar

  • Sem avaliação médica individual
  • Sem receita ou com produto de procedência desconhecida
  • Sem considerar outros remédios em uso e fatores de risco, como pancreatite ou doença da tireoide
  • Sem olhar o comportamento alimentar, principalmente a compulsão
  • Sem plano para o que acontece depois

Para quem já passou por várias dietas, entender o efeito sanfona é parte do tratamento.

O papel da terapia cognitivo-comportamental

O medicamento reduz a fome; ele não muda sozinho a forma como você reage a estresse, tédio ou ansiedade. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) trabalha exatamente essa passagem do automático para a escolha:

Sem treino

Situação→Pensamento→Impulso→Comer

Com a TCC

Situação→Percepção→Organizar o pensamento→Avaliar alternativas→Escolha consciente

Quando a consulta identifica compulsão alimentar e fome emocional, o Dr. Rafael pode indicar, na própria clínica, a terapia cognitivo-comportamental para compulsão alimentar.

Perguntas frequentes

Semaglutida e tirzepatida são a mesma coisa?

Não. A semaglutida age apenas no receptor de GLP-1. A tirzepatida age nos receptores de GLP-1 e de GIP, o que lhe dá um perfil farmacológico diferente.

Preciso de receita para comprar caneta emagrecedora?

Sim. Desde 23 de junho de 2025, a farmácia retém a receita de semaglutida, liraglutida, dulaglutida, exenatida, tirzepatida e lixisenatida. A receita é emitida em duas vias e vale por 90 dias.

O peso volta quando eu parar?

Parte importante tende a voltar. Na extensão do STEP 1, quem parou a semaglutida recuperou cerca de dois terços do peso perdido em um ano. Por isso a retirada é planejada caso a caso.

A caneta faz perder músculo?

Parte do peso perdido pode ser músculo, principalmente sem proteína suficiente e sem treino de força. A composição corporal deve ser medida no início e ao longo do tratamento.

Qual médico procurar?

O nutrólogo é um dos especialistas que avaliam obesidade, sobrepeso e o uso de medicamentos para controle do peso. Na Clínica Higashi, a avaliação nutrológica é feita pelo Dr. Rafael Higashi, como parte do emagrecimento com acompanhamento médico.

Leia também Nutrólogo ou nutricionista: qual a diferença, Nutrologia na prevenção e na longevidade e Medicina integrativa: mito ou realidade?.

Fontes consultadas

  1. Anvisa. Wegovy (semaglutida): nova indicação para controle de peso. Publicado no DOU em 2 de janeiro de 2023. Acessar
  2. Conselho Federal de Farmácia. Anvisa aprova Mounjaro para tratamento de obesidade e sobrepeso no Brasil, 9 de junho de 2025. Acessar
  3. Conselho Federal de Farmácia. Receitas de canetas emagrecedoras serão retidas a partir de 23 de junho de 2025. Acessar
  4. Conselho Federal de Farmácia. Anvisa aprova primeiro genérico de semaglutida em caneta no Brasil, 17 de agosto de 2026. Acessar
  5. Wilding JPH et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022;24(8):1553-1564.

Conteúdo informativo, escrito e revisado pela equipe médica da Clínica Higashi. Não substitui a consulta: diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.

Retrato de Dr. Rafael Higashi

Sobre o autor

Dr. Rafael Higashi

O Dr. Rafael Higashi avalia e acompanha o tratamento medicamentoso da obesidade na Clínica Higashi, em Botafogo, sempre com análise de composição corporal e atenção ao comportamento alimentar.

  • Médico, CRM-RJ 52.74345-3
  • Neurologista, RQE 13728, com residência no Instituto de Neurologia Deolindo Couto (UFRJ)
  • Nutrólogo, RQE 19627, título de especialista pela ABRAN-AMB
  • Mestre em Medicina (Reg. 0081/2008- UFF), na área de Neurologia
  • Formação em medicina da dor pela New York University (NYU)

Diretor médico da Clínica Higashi, em Botafogo, com 25 anos de atuação. Atendimento particular.

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Quer saber se o medicamento é indicado para você?

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A Clínica Higashi é uma clínica médica em Botafogo, no Rio de Janeiro, dirigida pelo Dr. Rafael Higashi, neurologista e nutrólogo, que integra neurologia, nutrologia, medicina da dor, neuromodulação cerebral, medicina integrativa e psicologia no cuidado do cérebro, da mente e do metabolismo.