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Artigos · Obesidade e emagrecimento

Obesidade é doença crônica: o que muda no tratamento

Tratar a obesidade como doença crônica muda o diagnóstico, as metas e a forma de acompanhar. Veja a nova definição de obesidade clínica, os números do Brasil e o caminho do tratamento médico.

Dr. Rafael Higashi
Revisado pelo Dr. Rafael HigashiMestre em Medicina (Reg. 0081/2008- UFF) · Neurologista (RQE 13728) · Nutrólogo (RQE 19627) · CRM-RJ 52.74345-3Publicado em · 7 min de leitura
Calendário, tênis, faixa elástica e medicação representando o cuidado contínuo da obesidade

Resposta rápida

A obesidade é uma doença crônica porque tem causas biológicas, genéticas e ambientais, tende a progredir e a voltar, e provoca outras doenças, como diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono e gordura no fígado. Tratá-la como doença crônica significa diagnóstico completo, metas de saúde, e não só de peso, acompanhamento de longo prazo e uso de todas as ferramentas necessárias: alimentação, atividade física, tratamento comportamental, medicamentos e, em casos selecionados, cirurgia.

Em 30 segundos

  • No Brasil, a obesidade atinge 25,7% dos adultos das capitais, mais que o dobro de 2006 (Vigitel 2024).
  • Em 2025, uma comissão internacional separou a obesidade clínica, com dano a órgãos, da obesidade pré-clínica.
  • SBEM e ABESO propõem classificar a obesidade pela perda em relação ao maior peso da vida: reduzida ou controlada.
  • Perder de 5% a 10% do peso já melhora pressão, glicemia e outros marcadores.

"Basta fechar a boca e se exercitar." Quem convive com a obesidade já ouviu essa frase muitas vezes, de conhecidos e, às vezes, de profissionais de saúde. Ela ignora o que a medicina reúne há décadas: a obesidade tem base biológica, tende a progredir e a voltar, e causa outras doenças. Reconhecê-la como doença crônica não é um rótulo. É o que muda o diagnóstico, as metas e o tratamento.

Por que a obesidade é considerada uma doença crônica?

A obesidade é considerada uma doença crônica porque reúne as três características que definem esse grupo: causas múltiplas e persistentes, evolução de longo prazo com tendência a progredir, e complicações em outros órgãos. A Organização Mundial da Saúde a classifica como doença, com código próprio na classificação internacional (E66).

Base biológica

Genética, hormônios da fome e da saciedade, sono, remédios e ambiente regulam o peso, e não só a força de vontade.

Tendência a voltar

Depois de emagrecer, o corpo aumenta a fome e reduz o gasto, defendendo o peso anterior.

Complicações

Diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono, gordura no fígado, artrose e doenças do coração.

O segundo ponto ajuda a entender por que tantas tentativas terminam em reganho. Um estudo clássico mostrou que, um ano depois de uma perda de peso, os hormônios que aumentam a fome continuavam elevados e os que dão saciedade continuavam baixos. O corpo não esquece o peso antigo.

Quantos brasileiros têm obesidade

A obesidade mais que dobrou no Brasil em menos de duas décadas. Segundo o Vigitel, pesquisa do Ministério da Saúde nas capitais:

Obesidade e excesso de peso em adultos das capitais brasileiras

Percentual de adultos, em 2006 e em 2024

80%60%40%20%0% 11,8%25,7%42,6%62,6% Obesidade (IMC 30 ou mais)Excesso de peso (IMC 25 ou mais)
  • 2006
  • 2024
Fonte: Ministério da Saúde, Vigitel Brasil 2006-2024, divulgado em janeiro de 2026.
Ver os dados em tabela
Indicador20062024
Obesidade11,8%25,7%
Excesso de peso42,6%62,6%

Em 2024, a obesidade atingia 26,7% das mulheres e 24,4% dos homens. Um em cada quatro adultos das capitais vive com a doença.

A nova definição: obesidade clínica e pré-clínica

Em 2025, uma comissão internacional publicada na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology propôs uma mudança importante: o IMC sozinho não basta para diagnosticar a doença.

  1. Confirmar o excesso de gorduraAlém do IMC, ao menos uma medida como cintura, relação cintura-altura ou medida direta da gordura. Acima de IMC 40, o excesso é presumido.
  2. Obesidade pré-clínicaExcesso de gordura sem dano aos órgãos ou às atividades do dia a dia, mas com risco aumentado.
  3. Obesidade clínicaExcesso de gordura que já causa sinais de disfunção em órgãos ou limita atividades como andar, se vestir ou se higienizar.

A comissão listou 18 critérios de obesidade clínica em adultos, como falta de ar, apneia do sono, alterações da glicemia, pressão alta, gordura no fígado com dano e dor nos joelhos que limita a marcha. Na prática, a proposta muda a pergunta da consulta: não é só "quanto você pesa?", mas "o que o excesso de gordura já está fazendo com o seu corpo?".

Uma classificação brasileira para depois do emagrecimento

Em 2022, a SBEM e a ABESO propuseram classificar a obesidade também pelo histórico, comparando o peso atual com o maior peso da vida (sem contar gestação):

IMC no maior pesoObesidade reduzidaObesidade controlada
30 a 39,9Perda de 5% a 10% do maior pesoPerda acima de 10%
40 ou maisPerda de 10% a 15%Perda acima de 15%

A ideia é valorizar o que de fato protege a saúde. Alguém que saiu de 118 kg para 103 kg pode continuar com IMC de obesidade e, ainda assim, ter a doença controlada.

O que muda quando o tratamento é de doença crônica

Visão de dieta

O peso como problema de comportamento

Objetivo
Chegar a um número na balança
Duração
Até o fim da dieta
Ferramentas
Restrição de comida
Reganho
Visto como fracasso pessoal

Visão de doença crônica

A obesidade como doença com base biológica

Objetivo
Saúde: glicemia, pressão, fígado, sono, mobilidade e composição corporal
Duração
Longo prazo, com fase de perda e fase de manutenção
Ferramentas
Alimentação, atividade física, tratamento comportamental, medicamentos e cirurgia
Reganho
Recaída prevista, que pede ajuste do tratamento

Metas de saúde, e não só de peso

Perder de 5% a 10% do peso já melhora pressão, glicemia, triglicerídeos e gordura no fígado. Para a apneia do sono e para as articulações, perdas maiores costumam trazer mais benefício. As metas são individuais e acompanhadas em exames e na composição corporal.

Como é feito o diagnóstico completo

O que a avaliação da obesidade inclui

  • Histórico do peso: quando começou, gestações, tentativas, reganhos e o maior peso da vida
  • Causas que contribuem: sono, estresse, remédios que engordam, tireoide e outras alterações hormonais
  • Composição corporal: gordura, gordura visceral e massa muscular
  • Cintura e relação cintura-altura
  • Doenças associadas: glicemia, pressão, colesterol, fígado, apneia, articulações
  • Comportamento alimentar: compulsão, fome emocional, comer à noite
  • Impacto no dia a dia: mobilidade, disposição, sono
Paciente fazendo bioimpedância InBody na Clínica Higashi
A bioimpedância mostra quanto do peso é gordura e quanto é músculo, um dado que o IMC não oferece.

Esse diagnóstico separa pessoas com o mesmo IMC e necessidades muito diferentes. É também o que permite escolher as ferramentas certas para cada fase.

Na Clínica Higashi

O Dr. Rafael Higashi faz a bioimpedância InBody e, quando indicada, a calorimetria indireta no próprio consultório, além da revisão dos exames e do comportamento alimentar.

As ferramentas do tratamento

  1. BaseAlimentação, atividade física com treino de força, sono e manejo do estresse, em todas as fases.
  2. ComportamentoTratamento da compulsão e da fome emocional, com terapia cognitivo-comportamental quando indicada.
  3. MedicamentosPara quem tem indicação, com escolha individual e plano de manutenção.
  4. CirurgiaPara casos selecionados, conforme os critérios do Conselho Federal de Medicina.

As ferramentas se somam, e não se excluem. Um tratamento com medicamento continua precisando da base; um tratamento sem medicamento pode passar a precisar dele em outra fase.

O estigma também atrapalha o tratamento

Em 2020, um consenso internacional de especialistas mostrou que o estigma do peso afasta as pessoas dos serviços de saúde, atrasa diagnósticos e piora o tratamento. A ideia de que a obesidade é só falta de disciplina não tem base científica e reduz a procura por ajuda.

O mesmo consenso recomenda que profissionais e serviços de saúde usem linguagem respeitosa, como "pessoa com obesidade", e tratem a doença com o mesmo rigor de qualquer outra condição crônica.

Mitos e verdades sobre a obesidade

Mito

Obesidade é falta de força de vontade.

Verdade

É uma doença com base biológica, genética e ambiental. Comportamento importa, mas não explica sozinho a doença.

Mito

O IMC basta para diagnosticar.

Verdade

O IMC é o ponto de partida. A nova definição pede confirmar o excesso de gordura e avaliar o efeito dele nos órgãos.

Mito

Se o peso voltou, o tratamento falhou.

Verdade

Recaída faz parte das doenças crônicas. Ela pede ajuste do tratamento, como em qualquer outra doença crônica.

Mito

Só vale a pena tratar se chegar ao peso ideal.

Verdade

Perdas de 5% a 10% já trazem benefícios de saúde mensuráveis.

Perguntas frequentes sobre obesidade

A obesidade é considerada doença pela OMS?

Sim. A Organização Mundial da Saúde classifica a obesidade como doença, com código próprio na classificação internacional de doenças.

Qual médico trata obesidade?

O nutrólogo e o endocrinologista são especialistas que tratam a obesidade, com apoio de nutricionista, psicólogo e educador físico quando necessário.

O que é obesidade clínica?

É a obesidade que já causa disfunção em órgãos ou limita atividades do dia a dia, segundo a definição proposta por uma comissão internacional em 2025.

Obesidade tem tratamento definitivo?

Como outras doenças crônicas, a obesidade tem controle, com acompanhamento de longo prazo. A meta é manter a doença controlada e prevenir complicações.

Quanto peso preciso perder para ter benefício?

Perdas de 5% a 10% do peso já melhoram pressão, glicemia e outros marcadores. A meta individual é definida na consulta.

Fontes consultadas

  1. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2006-2024: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico, 2026. Acessar
  2. Rubino F et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025;13(3):221-262. Acessar
  3. Halpern B et al. Proposal of an obesity classification based on weight history: an official document by SBEM and ABESO. Arch Endocrinol Metab. 2022;66(2):139-151. Acessar
  4. Sumithran P et al. Long-term persistence of hormonal adaptations to weight loss. N Engl J Med. 2011;365(17):1597-1604. Acessar
  5. Rubino F et al. Joint international consensus statement for ending stigma of obesity. Nat Med. 2020;26(4):485-497. Acessar

Conteúdo informativo, escrito e revisado pela equipe médica da Clínica Higashi. Não substitui a consulta: diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.

Retrato de Dr. Rafael Higashi

Sobre o autor

Dr. Rafael Higashi

O Dr. Rafael Higashi trata a obesidade como doença crônica na Clínica Higashi, em Botafogo, com diagnóstico completo, composição corporal medida no consultório e acompanhamento de longo prazo.

  • Médico, CRM-RJ 52.74345-3
  • Neurologista, RQE 13728, com residência no Instituto de Neurologia Deolindo Couto (UFRJ)
  • Nutrólogo, RQE 19627, título de especialista pela ABRAN-AMB
  • Mestre em Medicina (Reg. 0081/2008- UFF), na área de Neurologia
  • Formação em medicina da dor pela New York University (NYU)

Diretor médico da Clínica Higashi, em Botafogo, com 25 anos de atuação. Atendimento particular.

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A Clínica Higashi é uma clínica médica em Botafogo, no Rio de Janeiro, dirigida pelo Dr. Rafael Higashi, neurologista e nutrólogo, que integra neurologia, nutrologia, medicina da dor, neuromodulação cerebral, medicina integrativa e psicologia no cuidado do cérebro, da mente e do metabolismo.