Artigos · Obesidade e emagrecimento
Obesidade é doença crônica: o que muda no tratamento
Tratar a obesidade como doença crônica muda o diagnóstico, as metas e a forma de acompanhar. Veja a nova definição de obesidade clínica, os números do Brasil e o caminho do tratamento médico.


Resposta rápida
A obesidade é uma doença crônica porque tem causas biológicas, genéticas e ambientais, tende a progredir e a voltar, e provoca outras doenças, como diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono e gordura no fígado. Tratá-la como doença crônica significa diagnóstico completo, metas de saúde, e não só de peso, acompanhamento de longo prazo e uso de todas as ferramentas necessárias: alimentação, atividade física, tratamento comportamental, medicamentos e, em casos selecionados, cirurgia.
Em 30 segundos
- No Brasil, a obesidade atinge 25,7% dos adultos das capitais, mais que o dobro de 2006 (Vigitel 2024).
- Em 2025, uma comissão internacional separou a obesidade clínica, com dano a órgãos, da obesidade pré-clínica.
- SBEM e ABESO propõem classificar a obesidade pela perda em relação ao maior peso da vida: reduzida ou controlada.
- Perder de 5% a 10% do peso já melhora pressão, glicemia e outros marcadores.
"Basta fechar a boca e se exercitar." Quem convive com a obesidade já ouviu essa frase muitas vezes, de conhecidos e, às vezes, de profissionais de saúde. Ela ignora o que a medicina reúne há décadas: a obesidade tem base biológica, tende a progredir e a voltar, e causa outras doenças. Reconhecê-la como doença crônica não é um rótulo. É o que muda o diagnóstico, as metas e o tratamento.
Por que a obesidade é considerada uma doença crônica?
A obesidade é considerada uma doença crônica porque reúne as três características que definem esse grupo: causas múltiplas e persistentes, evolução de longo prazo com tendência a progredir, e complicações em outros órgãos. A Organização Mundial da Saúde a classifica como doença, com código próprio na classificação internacional (E66).
Base biológica
Genética, hormônios da fome e da saciedade, sono, remédios e ambiente regulam o peso, e não só a força de vontade.
Tendência a voltar
Depois de emagrecer, o corpo aumenta a fome e reduz o gasto, defendendo o peso anterior.
Complicações
Diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono, gordura no fígado, artrose e doenças do coração.
O segundo ponto ajuda a entender por que tantas tentativas terminam em reganho. Um estudo clássico mostrou que, um ano depois de uma perda de peso, os hormônios que aumentam a fome continuavam elevados e os que dão saciedade continuavam baixos. O corpo não esquece o peso antigo.
Quantos brasileiros têm obesidade
A obesidade mais que dobrou no Brasil em menos de duas décadas. Segundo o Vigitel, pesquisa do Ministério da Saúde nas capitais:
Obesidade e excesso de peso em adultos das capitais brasileiras
Percentual de adultos, em 2006 e em 2024
- 2006
- 2024
Ver os dados em tabela
| Indicador | 2006 | 2024 |
|---|---|---|
| Obesidade | 11,8% | 25,7% |
| Excesso de peso | 42,6% | 62,6% |
Em 2024, a obesidade atingia 26,7% das mulheres e 24,4% dos homens. Um em cada quatro adultos das capitais vive com a doença.
A nova definição: obesidade clínica e pré-clínica
Em 2025, uma comissão internacional publicada na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology propôs uma mudança importante: o IMC sozinho não basta para diagnosticar a doença.
- Confirmar o excesso de gorduraAlém do IMC, ao menos uma medida como cintura, relação cintura-altura ou medida direta da gordura. Acima de IMC 40, o excesso é presumido.
- Obesidade pré-clínicaExcesso de gordura sem dano aos órgãos ou às atividades do dia a dia, mas com risco aumentado.
- Obesidade clínicaExcesso de gordura que já causa sinais de disfunção em órgãos ou limita atividades como andar, se vestir ou se higienizar.
A comissão listou 18 critérios de obesidade clínica em adultos, como falta de ar, apneia do sono, alterações da glicemia, pressão alta, gordura no fígado com dano e dor nos joelhos que limita a marcha. Na prática, a proposta muda a pergunta da consulta: não é só "quanto você pesa?", mas "o que o excesso de gordura já está fazendo com o seu corpo?".
Uma classificação brasileira para depois do emagrecimento
Em 2022, a SBEM e a ABESO propuseram classificar a obesidade também pelo histórico, comparando o peso atual com o maior peso da vida (sem contar gestação):
| IMC no maior peso | Obesidade reduzida | Obesidade controlada |
|---|---|---|
| 30 a 39,9 | Perda de 5% a 10% do maior peso | Perda acima de 10% |
| 40 ou mais | Perda de 10% a 15% | Perda acima de 15% |
A ideia é valorizar o que de fato protege a saúde. Alguém que saiu de 118 kg para 103 kg pode continuar com IMC de obesidade e, ainda assim, ter a doença controlada.
O que muda quando o tratamento é de doença crônica
Visão de dieta
O peso como problema de comportamento
- Objetivo
- Chegar a um número na balança
- Duração
- Até o fim da dieta
- Ferramentas
- Restrição de comida
- Reganho
- Visto como fracasso pessoal
Visão de doença crônica
A obesidade como doença com base biológica
- Objetivo
- Saúde: glicemia, pressão, fígado, sono, mobilidade e composição corporal
- Duração
- Longo prazo, com fase de perda e fase de manutenção
- Ferramentas
- Alimentação, atividade física, tratamento comportamental, medicamentos e cirurgia
- Reganho
- Recaída prevista, que pede ajuste do tratamento
Metas de saúde, e não só de peso
Perder de 5% a 10% do peso já melhora pressão, glicemia, triglicerídeos e gordura no fígado. Para a apneia do sono e para as articulações, perdas maiores costumam trazer mais benefício. As metas são individuais e acompanhadas em exames e na composição corporal.
Como é feito o diagnóstico completo
O que a avaliação da obesidade inclui
- Histórico do peso: quando começou, gestações, tentativas, reganhos e o maior peso da vida
- Causas que contribuem: sono, estresse, remédios que engordam, tireoide e outras alterações hormonais
- Composição corporal: gordura, gordura visceral e massa muscular
- Cintura e relação cintura-altura
- Doenças associadas: glicemia, pressão, colesterol, fígado, apneia, articulações
- Comportamento alimentar: compulsão, fome emocional, comer à noite
- Impacto no dia a dia: mobilidade, disposição, sono

Esse diagnóstico separa pessoas com o mesmo IMC e necessidades muito diferentes. É também o que permite escolher as ferramentas certas para cada fase.
O Dr. Rafael Higashi faz a bioimpedância InBody e, quando indicada, a calorimetria indireta no próprio consultório, além da revisão dos exames e do comportamento alimentar.
As ferramentas do tratamento
- BaseAlimentação, atividade física com treino de força, sono e manejo do estresse, em todas as fases.
- ComportamentoTratamento da compulsão e da fome emocional, com terapia cognitivo-comportamental quando indicada.
- MedicamentosPara quem tem indicação, com escolha individual e plano de manutenção.
- CirurgiaPara casos selecionados, conforme os critérios do Conselho Federal de Medicina.
As ferramentas se somam, e não se excluem. Um tratamento com medicamento continua precisando da base; um tratamento sem medicamento pode passar a precisar dele em outra fase.
O estigma também atrapalha o tratamento
Em 2020, um consenso internacional de especialistas mostrou que o estigma do peso afasta as pessoas dos serviços de saúde, atrasa diagnósticos e piora o tratamento. A ideia de que a obesidade é só falta de disciplina não tem base científica e reduz a procura por ajuda.
O mesmo consenso recomenda que profissionais e serviços de saúde usem linguagem respeitosa, como "pessoa com obesidade", e tratem a doença com o mesmo rigor de qualquer outra condição crônica.
Mitos e verdades sobre a obesidade
Obesidade é falta de força de vontade.
É uma doença com base biológica, genética e ambiental. Comportamento importa, mas não explica sozinho a doença.
O IMC basta para diagnosticar.
O IMC é o ponto de partida. A nova definição pede confirmar o excesso de gordura e avaliar o efeito dele nos órgãos.
Se o peso voltou, o tratamento falhou.
Recaída faz parte das doenças crônicas. Ela pede ajuste do tratamento, como em qualquer outra doença crônica.
Só vale a pena tratar se chegar ao peso ideal.
Perdas de 5% a 10% já trazem benefícios de saúde mensuráveis.
Perguntas frequentes sobre obesidade
A obesidade é considerada doença pela OMS?
Sim. A Organização Mundial da Saúde classifica a obesidade como doença, com código próprio na classificação internacional de doenças.
Qual médico trata obesidade?
O nutrólogo e o endocrinologista são especialistas que tratam a obesidade, com apoio de nutricionista, psicólogo e educador físico quando necessário.
O que é obesidade clínica?
É a obesidade que já causa disfunção em órgãos ou limita atividades do dia a dia, segundo a definição proposta por uma comissão internacional em 2025.
Obesidade tem tratamento definitivo?
Como outras doenças crônicas, a obesidade tem controle, com acompanhamento de longo prazo. A meta é manter a doença controlada e prevenir complicações.
Quanto peso preciso perder para ter benefício?
Perdas de 5% a 10% do peso já melhoram pressão, glicemia e outros marcadores. A meta individual é definida na consulta.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2006-2024: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico, 2026. Acessar
- Rubino F et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. Lancet Diabetes Endocrinol. 2025;13(3):221-262. Acessar
- Halpern B et al. Proposal of an obesity classification based on weight history: an official document by SBEM and ABESO. Arch Endocrinol Metab. 2022;66(2):139-151. Acessar
- Sumithran P et al. Long-term persistence of hormonal adaptations to weight loss. N Engl J Med. 2011;365(17):1597-1604. Acessar
- Rubino F et al. Joint international consensus statement for ending stigma of obesity. Nat Med. 2020;26(4):485-497. Acessar
Conteúdo informativo, escrito e revisado pela equipe médica da Clínica Higashi. Não substitui a consulta: diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.


