Medicina Integrativa: mito ou realidade?

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No período pós-Segunda Guerra Mundial, a medicina americana adotava uma postura de forte cientificismo reduzindo ou limitando toda a capacidade e o conhecimento humano apenas aos instrumentos científicos e uma abordagem reducionista da saúde, centrada somente na doença de um órgão ou sistema específico.

O conceito de medicina integrativa nasce, então, de maneira gradual, como um questionamento a esse modelo médico tradicional. Este último, excessivamente acadêmico, focava na patologia, nos medicamentos e nas intervenções cirúrgicas para lidar com doenças crônicas e com a complexidade do ser humano.

Afinal, não ter uma doença não significa, necessariamente, sentir-se bem. Seria necessário, portanto, integrar diferentes abordagens terapêuticas alternativas ao modelo tradicional, já que o organismo é influenciado por vários fatores, como emocionais, nutricionais e ambientais, que impactam a saúde e o bem-estar.

O paciente deveria ser visto de forma mais global, e não apenas como um órgão doente ou um sistema com ou sem patologia.

É importante ressaltar que “integrativo” significa, principalmente, unificar conhecimentos e consequências práticas de diferentes áreas, e não oposição. Afinal, ainda se trata de medicina, atuando a favor da saúde e do bem-estar do indivíduo como um todo, de forma lógica e racional.

O histórico e a consolidação acadêmica

Mais tarde, na década de 1990, o movimento da medicina integrativa ganhou força quando universidades americanas adotaram oficialmente centros de estudo na área. Buscava-se a unificação de diferentes modalidades terapêuticas com foco no indivíduo como um todo (bem-estar físico, mental, emocional e espiritual).

Teve destaque a Universidade do Arizona, com o programa coordenado pelo Dr. Andrew Weil, médico graduado pela Harvard Medical School, o que conferiu maior legitimidade acadêmica à medicina integrativa naquele momento.

Anos mais tarde, em 1999, foi fundado o Consórcio Acadêmico de Centros de Saúde para Medicina Integrativa (Consortium of Academic Health Centers for Integrative Medicine – CAHCIM). Inicialmente, ele era composto por oito centros acadêmicos de medicina nos Estados Unidos, incluindo a Universidade do Arizona.

Posteriormente, expandiu-se para diferentes instituições, como as universidades de Harvard, Stanford e Massachusetts, passando a se chamar Consórcio Acadêmico de Medicina e Saúde Integrativa (Academic Consortium for Integrative Medicine & Health).

O objetivo explícito do Consórcio era promover e avançar nas abordagens não convencionais de promoção da saúde, prevenção e mudanças no estilo de vida acopladas à prática médica convencional. Isso foi feito por meio de pesquisa científica e do desenvolvimento de programas educacionais para profissionais da área, visando mudar o modelo assistencial para um cuidado integral, centrado na pessoa e baseado em evidências.

Portanto, embora o conceito de medicina integrativa tenha surgido pela primeira vez no final dos anos 1940, sua consolidação acadêmica ocorreu a partir dos anos 2000.

Uma abordagem Epistemológica do Conceito

Compreendido o histórico, avançamos em direção ao conceito de medicina integrativa por meio de um estudo mais profundo e epistemológico. Partindo da observação da realidade, identificamos semelhanças essenciais entre diferentes práticas médicas.

A mente integra essas diferenças em uma unidade mental; as variações quantitativas e não essenciais são omitidas, permitindo formar uma abstração e, consequentemente, o conceito universal.

Em termos lógicos, a integração é o ato cognitivo de relacionar e organizar diferentes conhecimentos ou aspectos da realidade em um sistema não contraditório, gerando uma compreensão mais ampla e unificada da realidade.

A mente humana conhece por diferenciação e integração conceitual. Portanto, para afirmar que uma condição não constitui uma doença, é preciso possuir previamente o próprio conceito de doença, diferenciando suas características essenciais e integrando os casos que pertencem a essa categoria.

É necessário compreender que a integração é o processo de unir partes diferentes em um todo organizado, no qual os elementos distintos guardam coerência entre si para formar uma unidade funcional.

A partir dessa observação, nota-se que a medicina integrativa é uma abordagem médica, e não uma especialidade, pois não possui objeto de estudo, campo de atuação, órgão, sistema ou doenças próprias. Trata-se de uma maneira geral de pensar, compreender e conduzir a saúde do paciente, diferindo da medicina convencional, cujo foco isolado é diagnosticar e tratar doenças.

A prática integrativa é mais ampla: engloba a medicina convencional com o diagnóstico e o tratamento de patologias específicas, mas também agrega abordagens que promovem a saúde e o bem-estar do indivíduo, mesmo na ausência de enfermidades.

Abre-se, assim, a oportunidade de correlacionar outros fatores que possam interferir negativamente ou positivamente na saúde, visando promover a qualidade de vida do indivíduo tanto na vigência da doença quanto na ausência dela.

A prática da medicina integrativa não é um conjunto fixo de terapias alternativas, mas uma atitude epistemológica de abertura racional ao conhecimento médico, que é um processo aberto e em permanente expansão.

Quando uma intervenção inicialmente considerada “integrativa” acumula evidências suficientes dentro da metodologia científica convencional, ela frequentemente é incorporada à prática tradicional. Entretanto, esse processo nunca se esgota, pois o conhecimento da realidade do indivíduo, biológica e mental, é complexo e contínuo; surgem, constantemente, novas descobertas e possibilidades terapêuticas a serem investigadas e integradas.

A medicina convencional e a medicina integrativa não são categorias estáticas e opostas. Existe uma relação dinâmica entre elas: a medicina integrativa explora evidências e a medicina convencional, por sua vez, absorve progressivamente e integra aquilo que faz sentido dentro de seu modelo.

A necessidade do conhecimento prévio

A medicina integrativa pressupõe a integração de saberes, formando uma unidade coerente; é unificar conhecimentos previamente diferenciados e compreendidos.

Contudo, não se pode integrar aquilo que não se conhece. Para integrar terapias convencionais e não convencionais em benefício do paciente, o médico deve, primeiro, conhecer a fundo a doença, suas causas, diagnósticos e tratamentos. Sem esse conhecimento prévio, não há integração real, mas sim uma mera justaposição de práticas desconectadas.

Imagine um paciente com queixa de cansaço. Se o médico não possui um conhecimento amplo das patologias que causam fadiga, pode concluir precipitadamente que se trata apenas de um processo natural do envelhecimento ou de uma questão inespecífica de estilo de vida.

Entretanto, a fadiga pode ser a manifestação de inúmeras condições graves, como doenças autoimunes do sistema nervoso, doenças da junção neuromuscular, miopatias, câncer oculto, além de problemas cardíacos, pulmonares ou endócrinos.

Para praticar a melhor medicina, o médico deve reconhecer essas possibilidades e investigá-las adequadamente, descartando ou confirmando os diagnósticos. Só então ele poderá integrar outras intervenções voltadas à melhora global do indivíduo.

Nesse sentido, a medicina integrativa não substitui a medicina convencional; ela a pressupõe. Quanto maior o conhecimento médico sobre as doenças e seus mecanismos, maior será a capacidade de integrar racionalmente outras abordagens. A boa medicina integrativa, portanto, exige, antes de tudo, uma sólida formação médica e um profundo conhecimento da patologia.

O foco na pessoa inteira

A medicina pressupõe compreender as causas das doenças e tratá-las quando possível. Portanto, não é correto afirmar que apenas a medicina integrativa busca tratar as causas, enquanto a convencional se limitaria aos sintomas.

A diferença essencial da medicina integrativa não está no fato de buscar as causas, mas sim no fato de ampliar o foco do cuidado, passando da doença isolada para a pessoa inteira, sem abandonar os princípios fundamentais da razão e da ciência médica.

O conhecimento médico é resultado de muitos anos de estudo, treinamento e experiência clínica. No Brasil, a formação médica exige seis anos de graduação. Mesmo aqueles que desejam uma visão mais global do paciente frequentemente realizam mais dois anos de residência em clínica médica para aprofundar o conhecimento das doenças mais prevalentes e, muitas vezes, outros dois ou três anos de especialização em uma área específica.

Isso é necessário para se tornar um verdadeiro especialista, não por subjetividade, mas por uma necessidade objetiva de aprofundamento para a compreensão.

Compreender as doenças, seus mecanismos, apresentações clínicas e diagnósticos diferenciais é uma tarefa extremamente complexa, que demanda tempo e dedicação.

A capacidade de reconhecer quando uma queixa aparentemente simples pode representar uma condição grave é construída ao longo de toda essa trajetória.

Por isso, propor abordagens terapêuticas não convencionais exige, antes, conhecer profundamente aquilo que se pretende integrar: as doenças, seus diagnósticos e seus tratamentos.

Sem esse fundamento, corre-se o risco de confundir sintomas de doenças potencialmente graves com problemas inespecíficos de estilo de vida ou envelhecimento.

Em outras palavras, não se faz medicina integrativa ignorando os caminhos básicos e necessários para conhecer a patologia; faz-se medicina integrativa justamente porque se percorreu esses caminhos.

Foto de Rafael Higashi
Rafael Higashi

Médico (CRM-RJ: 52.74345-3), Mestre em Medicina, Neurologista (RQE: 13728) e Nutrólogo (RQE: 19627) da Clínica Higashi, RJ.

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Rafael Higashi

Médico (CRM-RJ: 52.74345-3), Mestre em Medicina, Neurologista (RQE: 13728) e Nutrólogo (RQE: 19627) da Clínica Higashi.

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