Artigos · Obesidade e emagrecimento
Alimentação durante o uso de semaglutida e tirzepatida
Com a caneta, você come menos, e cada garfada passa a contar mais. Veja como montar o prato com pouca fome, o que fazer nos dias de enjoo e quais nutrientes acompanhar para proteger músculo e energia.


Resposta rápida
Durante o uso de semaglutida ou tirzepatida, a alimentação prioriza proteína em todas as refeições, verduras, legumes e outras fontes de fibra, água ao longo do dia e alimentos pouco processados. Como o apetite cai, as porções ficam menores, e a ordem do prato importa: proteína primeiro, vegetais em seguida, carboidrato por último. Nos dias de enjoo, refeições pequenas e com pouca gordura ajudam. Vitamina B12, ferro, vitamina D e cálcio merecem acompanhamento.
Em 30 segundos
- Em 2025, quatro sociedades americanas publicaram uma orientação conjunta de nutrição para quem usa medicamentos da família do GLP-1.
- Com pouca fome, comer a proteína primeiro garante a parte do prato que protege o músculo.
- Frituras, refeições grandes e bebidas com gás pioram enjoo, refluxo e arroto.
- Comer muito pouco por semanas favorece perda de músculo, intestino preso, queda de cabelo e cansaço.
No começo do tratamento, muita gente se surpreende: o almoço que antes parecia pouco agora sobra no prato, e a vontade de beliscar à tarde simplesmente some. É o efeito esperado da caneta. O desafio muda de lugar: em vez de controlar a fome, passa a ser garantir que o pouco que você come entregue o que o corpo precisa.
Por que a alimentação muda durante o tratamento
A alimentação muda porque os agonistas do GLP-1 reduzem o apetite, aumentam a saciedade e deixam o estômago mais lento. O volume de comida cai, às vezes pela metade. Quando a escolha do que comer fica no automático, a parte que mais sai do prato costuma ser justamente a mais importante: proteína, verduras e legumes.
Menos proteína
Favorece a perda de músculo junto com a gordura.
Menos fibra e água
Leva a intestino preso, um dos efeitos mais comuns.
Menos nutrientes
Ferro, B12, vitamina D e cálcio podem cair em meses.
Em 2025, quatro sociedades americanas de nutrição e obesidade publicaram uma orientação conjunta sobre o tema. A mensagem central é simples: o medicamento reduz a quantidade, e a alimentação precisa compensar com qualidade.
As cinco prioridades do prato
- ProteínaEm todas as refeições principais, para proteger o músculo.
- Vegetais e fibrasVerduras, legumes, frutas, feijões e grãos integrais.
- ÁguaAo longo do dia, em pequenos goles, também fora das refeições.
- Comida de verdadeAlimentos in natura e minimamente processados, como recomenda o Guia Alimentar brasileiro.
- MicronutrientesFerro, B12, vitamina D e cálcio acompanhados em exames.
A ordem do prato importa quando a fome é pequena
Com saciedade precoce, você pode parar de comer na metade do prato. Por isso, a ordem vira estratégia:
Começar pela proteína garante a parte que protege o músculo. Os vegetais vêm em seguida, pela fibra e pelos micronutrientes. O carboidrato fecha a refeição, na quantidade que ainda couber.
Quanto de proteína
A meta é individual e calculada sobre um peso de referência, e não sobre o peso atual. Como ponto de partida, muitas pessoas precisam de 25 a 30 g de proteína em cada refeição principal. Na prática, isso equivale a um filé de frango ou de peixe do tamanho da palma da mão, ou a dois ou três ovos com uma porção de queijo.
Como comer com pouca fome
- Fracione: três refeições menores e um ou dois lanches com proteína são mais fáceis de tolerar do que duas refeições grandes.
- Não pule refeições por falta de fome. Longos jejuns seguidos de uma refeição grande aumentam o enjoo.
- Coma devagar, em pelo menos 15 a 20 minutos, e pare ao primeiro sinal de saciedade.
- Use pratos menores: a porção parece adequada e o desperdício cai.
- Mastigue bem. Pedaços grandes ficam mais tempo no estômago lento.
Um dia de exemplo com apetite reduzido
| Refeição | Exemplo | Proteína aproximada |
|---|---|---|
| Café da manhã | 2 ovos mexidos, 1 fatia de pão integral e 1 fruta | cerca de 15 g |
| Lanche | 1 pote de iogurte natural com aveia | cerca de 8 a 10 g |
| Almoço | Filé de peixe (120 g), legumes refogados, salada e 2 colheres de arroz com feijão | cerca de 30 g |
| Lanche | Queijo cottage com fruta, ou uma dose de proteína do soro do leite | cerca de 10 a 20 g |
| Jantar | Frango desfiado (100 g) com legumes e purê de abóbora | cerca de 30 g |
É um exemplo para visualizar quantidades, e não uma dieta. O plano real depende do seu peso de referência, da função dos rins, da rotina e dos exames.

Hidratação: a parte mais esquecida
Com menos fome, muita gente também bebe menos. Some a isso o calor do Rio, o treino e eventuais episódios de diarreia ou vômito, e a desidratação aparece rápido: cansaço, tontura, dor de cabeça, intestino preso e, em casos mais intensos, risco para os rins.
Sinais de que falta água
- Urina escura ou em pouca quantidade
- Boca seca e sede ao acordar
- Tontura ao levantar
- Dor de cabeça no fim da tarde
- Intestino mais preso do que o habitual
Deixar uma garrafa à vista e beber em pequenos goles ao longo do dia funciona mais do que grandes volumes de uma vez, que pioram a sensação de estômago cheio.
O que reduzir, sobretudo nos dias de sintomas
Os ajustes mais úteis se ligam ao mecanismo do remédio: tudo o que fica muito tempo no estômago piora os sintomas.
| Sintoma | Ajuste na alimentação |
|---|---|
| Enjoo | Porções pequenas, menos gordura e fritura, alimentos frios ou em temperatura ambiente |
| Arroto com gosto de ovo | Menos volume por refeição, sem bebidas com gás, observar ovos e repolho em excesso |
| Refluxo | Jantar leve, pelo menos três horas antes de deitar; menos café e álcool à noite |
| Intestino preso | Mais água, fibras aumentadas aos poucos, frutas como mamão e ameixa, caminhada diária |
| Diarreia | Refeições leves, soro de reidratação oral quando frequente, menos gordura e adoçantes do tipo poliol |
Nutrientes que precisam de acompanhamento
Comer menos por meses reduz também a entrada de vitaminas e minerais. Alguns merecem atenção especial:
Vitamina B12. Sobretudo em quem também usa metformina ou remédios para o estômago, que reduzem sua absorção.
Ferro. Com pouca carne vermelha e feijão no prato, a ferritina pode cair, principalmente em mulheres que menstruam.
Vitamina D e cálcio. Importantes para os ossos, que também sentem a perda de peso rápida.
Proteína total. Quando a meta não é atingida com comida, um suplemento pode completar.
Se a falta de algum nutriente se confirma, a reposição segue a linha de cuidado das deficiências de vitaminas e minerais, com dose e tempo definidos em consulta.
Os exames de vitaminas e minerais entram no acompanhamento, e a bioimpedância no consultório mostra se a alimentação está protegendo o músculo.
Álcool durante o tratamento
Muitas pessoas relatam menos vontade de beber durante o uso da caneta. Quando houver consumo, a orientação é beber pouco, devagar e sempre com comida. O álcool piora enjoo, refluxo e desidratação, soma calorias sem nutrientes e, em quem usa remédios para diabetes, aumenta o risco de hipoglicemia.
A alimentação também prepara a saída
O período com pouca fome é a janela certa para criar hábitos: horários, proteína em cada prato, vegetais em quantidade. Quando a dose for reduzida ou o remédio suspenso, são esses hábitos que seguram o resultado.
Mitos e verdades sobre comer usando a caneta
Se não tenho fome, posso pular refeições.
Pular refeições reduz proteína e nutrientes e costuma piorar o enjoo na refeição seguinte. Porções pequenas e regulares funcionam mais.
Com a caneta, qualquer comida serve, porque o peso vai cair de qualquer jeito.
O tipo de comida decide se o peso perdido será gordura ou músculo, e como você vai se sentir durante o tratamento.
Quem usa caneta precisa de dieta sem carboidrato.
Carboidratos de boa qualidade, como feijão, frutas e grãos integrais, trazem fibra e energia. A ordem e a quantidade importam mais do que cortar.
Perguntas frequentes sobre alimentação durante o tratamento
O que comer quando estou enjoado com a caneta?
Porções pequenas, com pouca gordura, em temperatura ambiente ou frias: iogurte, frutas, torradas, frango desfiado, sopas leves. Beba líquidos em pequenos goles entre as refeições.
Preciso tomar suplemento de proteína?
Só quando a meta não é atingida com comida. Ele é útil nos dias de pouca fome, mas não substitui as refeições.
Posso tomar café usando a caneta?
Pode. Se houver refluxo ou enjoo, prefira menos quantidade, longe do jantar e não em jejum.
Preciso de multivitamínico?
Depende do quanto você está comendo e dos exames. Quando a ingestão fica muito baixa por semanas, o médico pode indicar.
Quantas refeições por dia devo fazer?
Em geral, três refeições principais e um ou dois lanches com proteína, todas em porções menores do que antes do tratamento.
Fontes consultadas
- Mozaffarian D et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint Advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. Am J Clin Nutr. 2025;122(1):344-367. Acessar
- Mechanick JI et al. Strategies for minimizing muscle loss during use of incretin-mimetic drugs for treatment of obesity. Obes Rev. 2025;26(1):e13841. Acessar
- Bauer J et al. Evidence-based recommendations for optimal dietary protein intake in older people: a position paper from the PROT-AGE Study Group. J Am Med Dir Assoc. 2013;14(8):542-559. Acessar
- Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira, 2ª edição, 2014. Acessar
Conteúdo informativo, escrito e revisado pela equipe médica da Clínica Higashi. Não substitui a consulta: diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.



