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Dor crônica: o que é e quando procurar o médico da dor
Quando a dor passa de três meses, ela deixa de ser só um sintoma. Entenda por que o alarme não desliga e o que muda no tratamento.


Resposta rápida
Dor crônica é a dor que persiste ou volta por mais de três meses. Ela pode vir de uma lesão ativa (nociceptiva), de uma lesão do sistema nervoso (neuropática) ou de um sistema nervoso que ficou mais sensível (nociplástica). Procure o médico da dor quando a dor passa de três meses, pede analgésico com frequência ou atrapalha o sono e a rotina.
Em 30 segundos
- Nos estudos brasileiros, a dor crônica aparece em 23% a 76% das pessoas avaliadas, com média em torno de 45%.
- Identificar o tipo de dor muda o tratamento.
- Dor nociplástica, como na fibromialgia, é real e tem tratamento.
- Dor com febre, perda de peso, fraqueza ou alteração urinária pede avaliação urgente.
Ela começa numa mudança de colchão, num treino mais pesado ou sem motivo nenhum. Passa uma semana, um mês, três meses. Os exames "não mostram nada grave", o analgésico funciona cada vez menos e a dor começa a mexer com o sono, o humor e o trabalho. Se você se reconhece aqui, saiba que não está sozinho, e que a medicina já entende boa parte dos mecanismos que fazem a dor continuar.
O que é dor crônica?
Dor crônica é a dor que persiste ou volta por mais de três meses. É o critério da Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) e da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), que passou a tratar a dor crônica também como uma condição em si, e não só como sintoma de outra doença.
"Uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial."
A frase reconhece duas coisas importantes: a dor sempre tem um componente emocional, e ela pode existir mesmo quando os exames não encontram uma lesão que a explique.
Quanto a dor crônica é comum no Brasil
Uma revisão sistemática publicada em 2021 reuniu 35 estudos brasileiros. A dor crônica apareceu em 23% a 76% das pessoas avaliadas, com média em torno de 45%, e as mulheres são as mais afetadas.
A média dos estudos equivale a cerca de 9 em cada 20 pessoas avaliadas.
Prevalência de dor crônica no Brasil
Variação entre os 35 estudos e média nacional (%)
Ver os dados em tabela
| Medida | Valor |
|---|---|
| Menor prevalência encontrada | 23% |
| Média nacional | cerca de 45% |
| Maior prevalência encontrada | 76% |
Dor aguda e dor crônica: o alarme que não desliga
Dor aguda
Um alarme útil
- Duração
- Dias a semanas
- Função
- Avisa que há uma lesão
- O que acontece
- Some quando a lesão cicatriza
Dor crônica
Um alarme que continua tocando
- Duração
- Mais de três meses
- Função
- Perdeu a função de proteção
- O que acontece
- O sistema nervoso passa a participar da dor
Os três tipos de dor
Entender o mecanismo é o primeiro passo do tratamento, porque cada tipo responde a estratégias diferentes. Repare em como as pessoas costumam descrever cada uma:
Nociceptiva
Lesão ou inflamação ativa em músculos, articulações ou órgãos. Ex.: artrose, tendinites.
"Dói quando eu mexo, num ponto que eu consigo apontar."Neuropática
Lesão ou doença do sistema nervoso: nervos, medula ou cérebro. Ex.: ciática, neuropatia diabética, dor após herpes-zóster.
"Queima, dá choque, formiga."Nociplástica
Sistema nervoso mais sensível, sem lesão que explique a intensidade. Ex.: fibromialgia.
"Dói o corpo todo, e eu acordo cansado."Os tipos podem se misturar. Uma dor lombar crônica pode começar nociceptiva e ganhar componentes neuropáticos e nociplásticos com o tempo. A dor neuropática pede medicamentos que agem sobre o nervo, e não os analgésicos comuns.
Dor nociplástica não é "dor emocional"
Na sensibilização central, o sistema nervoso amplifica os sinais de dor. A dor é real, tem mecanismo descrito e tratamento. Ouvir que "é coisa da cabeça" costuma atrasar o cuidado de quem tem, por exemplo, fibromialgia.
Quando procurar o médico da dor?
- A dor dura mais de três meses ou volta com frequência
- Você precisa de analgésico várias vezes por semana
- A dor atrapalha o sono, o trabalho ou o lazer
- Já fez exames e tratamentos, e a dor continua sem explicação clara
- Há queimação, choque ou formigamento junto com a dor
- A dor começou depois de uma cirurgia ou de um herpes-zóster e não passou
Sinais de alarme: procure atendimento logo
- Dor com febre ou perda de peso sem explicação
- Perda de força em braço ou perna
- Alteração para urinar ou evacuar junto com dor nas costas
- Dor depois de queda ou trauma
- Dor nova em quem tem histórico de câncer
Como é a avaliação
- História da dorQuando começou, como é, o que piora, o que alivia e o que já foi tentado.
- ExameFísico e neurológico, para identificar a origem e o tipo.
- ExamesOs que você trouxer e, se preciso, pedidos direcionados.
- PlanoCombinação de estratégias, com metas de função, como dormir melhor ou voltar a caminhar.
As etapas do tratamento da dor crônica são explicadas na primeira consulta.
Antes da consulta, anote por uma semana
- A intensidade da dor de 0 a 10, de manhã e à noite
- O que piora e o que alivia
- Quantas vezes tomou analgésico, e qual
- Como dormiu
Como a dor crônica é tratada
O tratamento raramente depende de uma única medida. Os resultados mais consistentes vêm da combinação de estratégias escolhidas para o tipo de dor de cada pessoa.
Medicamentos
Por períodos definidos; na dor neuropática, remédios que modulam o nervo.
Exercício
Força, mobilidade e confiança no movimento. Base de quase todos os planos.
Procedimentos
Infiltrações e bloqueios no ponto identificado, quando há indicação.
Psicoterapia
TCC para reduzir o impacto da dor no humor, no sono e na rotina.
Sono
Tratar a insônia pode reduzir a sensibilidade à dor.
Neuromodulação
Pode ser discutida em casos selecionados, sempre como parte de um plano mais amplo.

As infiltrações e bloqueios são indicados pelo padrão da dor, e a TCC na dor crônica completa o plano quando a dor já afeta humor e rotina. A abordagem completa está em medicina da dor.
Erros que mantêm a dor
- Ficar em repouso por longos períodos, o que enfraquece músculos e aumenta a sensibilidade
- Tomar analgésico todo dia por conta própria, por meses
- Trocar de tratamento antes de identificar o tipo de dor
- Tratar a dor e ignorar o sono e o humor
- Esperar uma solução única, como uma injeção ou um remédio que resolva tudo
O uso prolongado de analgésicos merece atenção especial: além dos efeitos no estômago, nos rins e no fígado, em algumas dores de cabeça ele mantém a própria dor. E entender a relação entre dor e sono costuma mudar o rumo do tratamento.
Perguntas frequentes
Quanto tempo de dor é considerado crônico?
Mais de três meses, de forma contínua ou com crises que voltam. É o critério da IASP e da CID-11.
Qual médico trata dor crônica?
Médicos com formação em dor, que podem ser neurologistas, anestesiologistas, fisiatras, ortopedistas ou reumatologistas, entre outros. Na Clínica Higashi, a avaliação é feita pelo Dr. Rafael Higashi, neurologista com formação em medicina da dor pela NYU.
Dor crônica tem tratamento?
Sim. O objetivo é reduzir a dor e recuperar a função, com estratégias escolhidas para o tipo de dor. A resposta varia de pessoa para pessoa.
Fibromialgia é uma dor real?
Sim. É um exemplo de dor nociplástica, ligada a uma sensibilidade aumentada do sistema nervoso, com critérios diagnósticos e tratamento.
Dor crônica tem relação com depressão?
Sim. A dor piora o humor e o sono, e a depressão aumenta a percepção da dor. Por isso o plano costuma tratar as duas frentes.
Se a dor vem junto com uma depressão que não melhorou com remédios, leia Depressão resistente e EMTr. Veja também Medicina integrativa: mito ou realidade? e Nutrologia na prevenção e na longevidade.
Fontes consultadas
- Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor. Definição revisada de dor após quatro décadas. BrJP, 2020 (tradução da definição da IASP). Acessar
- Aguiar DP et al. Prevalência de dor crônica no Brasil: revisão sistemática. BrJP, 2021;4(3). Acessar
- Treede RD et al. Chronic pain as a symptom or a disease: the IASP Classification of Chronic Pain for the International Classification of Diseases (ICD-11). Pain, 2019;160(1):19-27.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.986/2012, sobre a estimulação magnética transcraniana. Acessar
Conteúdo informativo, escrito e revisado pela equipe médica da Clínica Higashi. Não substitui a consulta: diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.



